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Leonardo MartinsMartins Cavalcante Advogados · desde 1980

Conteúdo · Patrimonial

Holding patrimonial para médicos: quando faz sentido (e quando não)

· 6 min de leitura · Por Leonardo Martins

A holding virou moda. Para muitos médicos, abrir uma é resolver um problema que ainda não existe, pagando por isso. A pergunta certa vem antes.

A holding patrimonial é uma ferramenta séria. Como toda ferramenta séria, faz estrago quando aplicada no contexto errado. Nos últimos anos, virou comum o médico chegar dizendo: “preciso abrir uma holding”. Quase nunca essa é a primeira pergunta certa.

Para que serve uma holding

Uma holding bem estruturada resolve, em geral, três coisas: organiza a sucessão do patrimônio em vida, separa bens pessoais dos riscos da atividade profissional e pode tornar mais eficiente a tributação de rendimentos como aluguéis e participações societárias. Quando nenhum desses três pontos é um problema concreto, abrir holding é despesa, não investimento.

Quando faz sentido

  • patrimônio imobiliário relevante gerando renda de aluguel;
  • filhos próximos da maioridade, ou patrimônio que precisará ser dividido;
  • casamento sem pacto antenupcial e patrimônio anterior a organizar;
  • operação clínica com risco real de execução patrimonial;
  • participação societária em mais de uma empresa.

Quando não faz sentido

Médico no início da carreira, sem patrimônio acumulado, sem filhos, sem renda passiva relevante e com clínica de baixo risco operacional não precisa de holding. Vai pagar para manter uma estrutura vazia e pode abrir mão de tratamentos tributários que a pessoa física já tem. Estrutura sem propósito é custo recorrente sem retorno.

Os custos que ninguém menciona

Uma holding é uma pessoa jurídica. Tem contabilidade própria, obrigações acessórias, custos de constituição e de manutenção, e exige governança: atas, deliberações, contratos entre ela e os sócios. Quem a trata como um cofre esquece que o cofre precisa ser administrado. Quando o patrimônio que ela abriga é pequeno, o custo de mantê-la supera qualquer vantagem que ela ofereça. E uma holding mal administrada, com atas em atraso e fluxo financeiro misturado ao dos sócios, perde exatamente a característica que justificava a sua existência: a separação.

Holding sem substância é conta de passagem

Há um segundo erro, mais grave do que abrir uma holding desnecessária: abrir uma holding de fachada. Uma estrutura sem operação real por trás, criada só para simular uma economia tributária, é o que o Fisco costuma tratar como conta de passagem. Não é planejamento. É simulação. E simulação, quando identificada, cobra o imposto que se tentou evitar, com multa, e ainda desmonta a proteção que a estrutura prometia.

Nos dez anos em que trabalhei ao lado de Ministros de tribunais superiores, vi essa história terminar muitas vezes. A holding existia no papel. A operação continuava na pessoa física. O tribunal não teve dúvida sobre qual das duas realidades valia.

Holding e clínica: duas casas, dois riscos

Para o médico, a pergunta patrimonial quase sempre passa pela clínica. A clínica gera receita e gera risco: responsabilidade civil, relações de trabalho, tributos. A holding, quando faz sentido, fica do outro lado dessa linha, abrigando o que não deve ser alcançado pelos riscos da operação. Isso só funciona se a linha existir de fato. Se a clínica paga despesas pessoais do sócio, se a holding empresta para a clínica sem contrato, se os imóveis da holding são usados pela clínica sem aluguel formal, a linha desaparece. E, com ela, a proteção.

Como leio uma holding de trás para frente

Antes de desenhar qualquer estrutura, faço a pergunta do método: se essa holding fosse examinada por um auditor ou por um juiz daqui a alguns anos, o que ela teria para mostrar? Contratos reais, fluxo financeiro coerente, propósito documentado, sócios que sabem por que ela existe. Se a resposta for consistente, a holding é sólida. Se a resposta depender da boa vontade de quem examina, ela não está pronta.

O que analiso antes de propor uma holding

  • o patrimônio atual, bem a bem, e a origem dele;
  • a família: regime de bens, filhos, sucessão desejada;
  • a clínica: estrutura societária, riscos da atividade, sócios;
  • os objetivos: proteção, sucessão, eficiência, ou uma combinação deles;
  • os custos de constituir e manter a estrutura, comparados ao tamanho do problema que ela resolve.

Só depois disso a holding entra, ou não entra, no plano. No Preparo Calculado Médico, ela é uma das ferramentas da frente patrimonial. Nunca o ponto de partida. O ponto de partida é sempre a mesma pergunta: o que o médico precisa proteger, de quem e por quanto tempo.

Se este ponto existe na sua clínica, vale avaliá-lo antes que seja testado.

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Conteúdo informativo. Não substitui a análise do caso concreto.

Sócio da Martins Cavalcante Advogados, fundada em 1980 em Brasília.

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